Primeira parte: A criação (parte 1)
Tudo o que havia se resumia ao Espaço e às três entidades. Não que fosse pouco, por que se trata de tudo o que temos ao nosso redor hoje e tudo o mais que nem sabemos ainda que existe. Contudo, Nalus não negou sua essência e decidiu criar. Com seu poder infinito, em seu primeiro esforço criou todos os tipos de energia possíveis, que de fato é uma só, mas assim como um cubo tem diversos lados e é um só, assim é a primeira obra de Nalus.
Cheio de energia, o Espaço regozijou e torceu para que, à semelhança de seu irmão, Trifan e Cuzio se manifestassem. O primeiro tentou destruir toda a energia que seu gêmeo criou, mas uma piscada do segundo fez com que o ato fosse transformado em separação. Assim, parte da energia virou matéria, parte se fez massa e o restante ficou como estava. A confusão generalizada do toque de duas entidades ao mesmo tempo causou uma enorme explosão, e até hoje é possível ver traços do acontecimento se você olhar fixamente para o céu por bastante tempo.
A ruptura causada foi enorme! O Espaço, que tudo via distraidamente, como quem observa filhos brincarem numa caixa de areia sem se atentar aos detalhes, assustou-se com a abrupta mudança de cenário. E em um movimento de todo involuntário, quase o Espaço volta a ser Tempo e tudo teria um fim sem nem ter começado. Como nós, seres humanos, estamos aqui para contar a história, obviamente não foi isso que aconteceu, e apesar de nada se saber sobre como o Espaço conteve-se e permaneceu, é sabido que o tempo iniciou-se aí. Só a partir deste acontecido é que pode se falar com propriedade em antes e depois, e toda vez que se usa essas palavras antes deste ponto é pura metáfora literária.
A explosão inicial, aquela que fez o tempo começar a contar dentro do Espaço, foi tão encantadora e maravilhosa, apesar de inesperada, que nenhum deles interferiu enquanto matéria, massa e energia se espalhavam por todo o Espaço. A falta de interação entre esses elementos, contudo, intrigava Nalus. Era como se cada um fosse transparente a tudo ao seu redor e ele percebeu que nada de concreto sairia dali. Infeliz com o rumo que sua criação estava tomando, Nalus interferiu novamente. Um movimento singelo e as interações foram criadas por ele, fazendo com que surgisse o que hoje chamamos de força. Assim como a energia, todos os tipo de força foram criados, apesar da força ser uma só, o que até hoje é um mistério dentro do conhecimento.
Trifan, reativo mais do que criativo, porém também infinitamente inteligente como seus irmãos, resolveu por seus dedos naquelas infindáveis interações que surgiram, desta vez agindo com cautela para evitar as interferências de mau gosto do aparentemente inconsequente Cuzio. Ao invés de acabar com as interações, aumentou-lhes a potência para que o encontro de duas partes de energia aniquilasse ambas e o encontro de duas partes de massa se agregasse ao ponto de nunca mais se separarem e atraírem cada vez mais massa. Inevitavelmente, pensou o ente da destruição, era só aguardar tempo o suficiente para que tudo fosse destruído.
Todos se surpreenderam. Trifan deu um golpe de mestre, sua essência se manifestou de forma alternativa ao tradicional e tirou todos do eixo. O Espaço se encolheu levemente por um período mais curto do que qualquer mísero instante, e só depois voltou a se expandir. Nalus nem se deu conta que criou um, e apenas um, ponto absoluto de energia, que até hoje vaga como singularidade por aí na imensidão. Já Cuzio foi além...
O mais novo entendeu o que acontecia e enxergou potencial. O espanto deu lugar ao brilhantismo, o choque abriu margem para a novidade. Cuzio mexeu nas regras! Sim, a energia, a matéria e a massa que Nalus criou ficariam lá, bem como as respectivas interações. Sim, as aniquilações de Trifan permaneceriam, bem como os aglomerados que a tudo sugam. Mas Cuzio decidiu que o infinito não mais seria a regra absoluta. Assim, ele transformou as existências e inventou o limite. E com o limite, estava estabelecido o equilíbrio, a base do sistema do nosso saber.
A perfeição do que estava a sua frente tocou o Espaço. Poucos dos nossos segundos haviam se passado desde o início do tempo, mas sua sabedoria eterna percebeu que aquilo era bom e deveria perseverar, mesmo à custa dele ter que interferir. Gigante demais para deter os dois irmãos antagônicos, mas ainda com todo o poder que lhe era intrínseco, mais poderoso do que as três entidades somadas, o Espaço respirou fundo e usou de seus atributos para acabar com o embate antes que tudo se transformasse em nada e em tudo e em nada eternamente. Sua voz foi ouvida pela segunda vez em toda a existência:
- Nalus! Trifan! Eu ordeno que se juntem a mim!
Nenhum dos dois tinha ideia do que aquilo significava, mas obedeceram prontamente. Em milhões de bilhões de trilhões de pedaços, ambos se desagregaram e passaram a fazer parte do Espaço e o encontro proposital de cada pedacinho de um com o de outro dourou o céu de fagulhas por incontáveis Períodos, que se juntaram em Eras, que se aglomeraram em Éons até que, por fim, quase tudo ficou escuro.
Ali, Cuzio chamou pelo seu Originador e pelos seus irmãos e não obteve resposta de ninguém. Sentia o Espaço ali, mas como algo e não mais alguém. Seus pares, contudo, não mais percebia; estejam mesclados ou banidos, ele nunca mais teve contato de forma alguma. A sua frente, a infinidade de possibilidades se abriu para o Transformador. Querendo esquecer a saudades que sentia de companhia, renomeou o Espaço como Universo e passou a tratar tudo como seu.
P.S.: agradecimentos especiais ao colega dos Contos Medievais, que, com um e-mail, criou a fagulha para continuar este conto.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
A criação (parte 2)
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Vitória (parte 1)
Eu havia caminhado pela neblina por algumas semanas, somente com os suprimentos que carregava nas costas. Meu querido cavalo Kalorus não suportara dois dias de viagem depois da batalha de Oboupur, e tive que sacrificá-lo perto da Ponte Ágata.
Andar sem enxergar mais de 10 metros a frente já é um desafio absurdo. Quando se está em território desconhecido, dentro de região pantanosa e racionando comida, a tarefa passa a ser uma epopeia! E essa foi minha situação por um bom tempo...
Devo admitir que, em qualquer situação, há coisas boas para se tirar proveito. O isolamento, o silêncio e a privação me fizeram olhar para dentro, refletir comigo mesmo sobre o porquê de ser um guerreiro e um conquistador. Fui colocado frente a frente com cada alma que arranquei do corpo com o fio da espada e a explosão dos meus músculos. Pude, pela primeira vez na vida após um embate, ponderar a razão de viver e deixar de pensar em voltar para casa apenas para me esbaldar com as mulheres do castelo. A conclusão não veio de sopetão, mas a cada minuto se tornava mais evidente: eu precisava de alguém para quem regressar.
Uma mulher que ficasse aflita ao me ver partir, que me odiasse por eu ter escolhido a guerra como fonte de riqueza, que sorrisse largamente ao me ver voltar de uma campanha e cuidasse de meus ferimentos até que a próxima incursão se anunciasse. Ela carregaria meus filhos no ventre com orgulho e iria ensiná-los o amor e a retidão, enquanto eu os lecionaria a arte do combate e os princípios que regem a honra de um guerreiro. As filhas que fossem fruto de nossa paixão seriam as mais belas e gentis do reino, carinhosas como a mãe e dedicadas como o pai.
Apesar da fome, do cansaço, do sono e de tudo o mais que a exaustão traz a reboque, essa motivação empurrava minhas pernas uma após a outra. Perto da fronteira do charco com a planície, uma luz trêmula e amarela brilhou no horizonte, rompendo o véu esbranquiçado da neblina. Senti que era meu sinal e caminhei determinado naquela direção.
Uma fogueira! Eu havia encontrado vida após tantos dias andando só e a esmo! Sendo mais sortudo do que cauteloso, me aproximei daquela clareira sem maiores preocupações e não encontrei resistência. Havia comida fresca, água e algumas frutas silvestres junto às chamas, mas nenhum ser vivo. Contudo, antes que eu pudesse mover um músculo em direção aos suprimentos, senti uma adaga tocar meu pescoço. Sem entrar em pânico por um segundo sequer, notei que, quem quer que fosse o agressor, tinha um cheiro suave de flores do campo.
Uma voz firme, mas doce como o toque da harpa, ordenou: "Ajoelhe-se sem movimentos bruscos ou lhe tiro a vida!". Obedeci o pedido, mas, sendo versado na arte da luta, não me contive e tentei surpreendê-la puxando sua perna e provocando sua queda. Com os reflexos de um felino, ela pulou, evitou o tombo, ajoelhou-se sobre meu abdômen e enterrou a pequena faca em meu ombro.
A dor já era minha companheira havia dias, e aquela agressão já não fazia mais diferença. Agarrando firmemente um de seus braços, girei-a em direção à luz da fogueira e me deparei com uma imagem que escultor nenhum conseguiria reproduzir com perfeição. Uma mulher de cabelos longos e ondulados olhava para mim com ódio. Sua pele lisa enchia-se de rugas com aquela feição, mas sua beleza não conseguia se ocultar. Olhos tão escuros como a própria noite refletiam a chama vacilante atrás de nós e miravam o fundo dos meus olhos, provavelmente buscando minha alma.
Afastei-a de mim como pude, receoso de que ela conseguisse encontrar uma brecha em meu cansaço e piorasse o ferimento. Sua postura era de estado selvagem puro: os dentes à mostra, os pés calçados em sapatilhas rudimentares firmemente apoiados no chão e prontos tanto para avançar quanto para recuar, os braços próximos ao corpo sustentando o equilibrio do conjunto. Antes que qualquer movimento seguinte se fizesse, rolei mais uma vez para trás e pus-me de pé enquanto tentava acalma-la:
- Não temas, mulher. Não quero causar-lhe mal algum. - Calmamente desatei o cinto em que carregava a espada e o deixei cair no chão. - Caminho há mais tempo do que gostaria por esse local desconhecido e somente quero um lugar seguro para descansar e algo que preencha meu estômago além dos pequenos animais que encontrei pelo caminho. Aceite minha pequena reserva de água restante como prova da veracidade do que digo.
Sem pressa, tirei a bolsa de couro que carregava cruzada sobre o ombro e a joguei os pés daquela ninfa acuada, que diminuia a tensão dos músculos e trocava a expressão de agressão por uma de desconfiança. Também chutei a espada para mais longe de mim, tentando mostrar cooperação. Obviamente, a faca que trazia na parte de dentro da bota permaneceu lá por precaução.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Guerra e Sangue (parte 2)
Primeira parte: Guerra e Sangue (parte 1)
Ranik, mantendo o grito ainda por alguns segundos, retirou seu machado das costas e apontou para o exército inimigo. Simultaneamente, começou a correr em direção a eles, seguido de perto por seus liderados.
Do lado dos molitas, em vista da movimentação dos invasores, a dança ritual parou e gritos de ordem puderam ser ouvidos, sem que se fosse capaz de detectar a origem do som, contudo. Do chão, eles puxaram seus escudos quadrados de madeira escura e formaram uma parede. O choque da força contra a resistência seria o primeiro ato do teatro marcial.
O General se aproximava velozmente com seu exército, mas diminuiu o ritmo para permitir que o encontro violento entre corpos, espadas e a muralha negra de escudos se desse entre os mais empolgados: geralmente os mesmos que se perdiam na adrenalina e morriam no início da batalha.
Ranik, então, ordenou ao segundo destacamento que flanqueasse pela direita assim que a guarda inimiga fosse desafiada pela primeira batida, forçando ao extremo a tática e a organização molita.
As primeiras vidas eram ceifadas quando o líder dos ueltas teve a visão que queria: na terceira fileira atrás dos escudos, gesticulando sutilmente e falando alto, todavia sem chamar atenção, um molita de cabeça raspada e pele avermelhada ditava os movimentos do exército nativo.
Vendo que estava sendo flanqueado, o homem careca falou uma ou duas palavras incompreensíveis e o bloco molita de pouco menos de dez mil elementos dividiu-se em dois. Surpreendentemente, o segundo bloco deixou o primeiro e partiu para a ofensiva. Estava instalada a guerra total.
Esse é, sem dúvidas, o pior cenário possível para os comandantes. Levados pela fúria, pela emoção e até pelo instinto de sobrevivência, os combatentes param de obedecer cegamente (fundamental para que qualquer estratégia funcione) e começam a tentar matar o maior número possível de adversários, indiscriminadamente. Assim, perde-se a organização, perdem-se combatentes e, o puor dos efeitos, perde-se muito Sangue, que escorre dos corpos mutilados e serve aoenas para tingir o campo de batalhas.
Ciente desse risco e fazendo uso de sua experiência e sabedoria vindos principalmente do Sangue acumulado, Ranik ordenou o reagrupamento em células. Os soldados ueltas, nessa formação, devem formar grupos compactos de até quinhentos homens e manter a defensiva. O General, assim, pretende reduzir as baixas de seu lado e diminuir a violência dos assassinatos, deixando mais Sangue disponível ao final da luta.
O líder molita, que Ranik percebeu que era chamado de Vina pelos companheiros, mostrou-se surpreso. Também vociferou algumas ordens, que eram replicadas para o próximo por cada combatente de seu exército, e resolveu atirar-se um movimento extremamente inusitado e arriscado.
Tendo sido identificado por Vina como líder uelta e potência de Sangue, Ranik virou alvo de todos os molitas! Às dúzias, eles se atiravam contra o General para matá-lo e eram dizimados, um a um. O trunfo molita de igualdade mostrou seu lado perverso: não havia um homem capaz de, sozinho, tirar a vida desse guerreiro.
Quase quatro horas de combate haviam transcorrido e o resultado começava a ficar ruim para os donos das terras, com muitas baixas e a frustração ameaçando tomar seus corações. Vina, atento a isso, agachou-se, tomou um punhado do solo pedregoso nas mãos, esfregou, assoprou e jogou para o alto.
Antes que os pedriscos voltassem a tocar o chão, um estrondo de trovão sobrepôs-se às vozes que gritavam naquele vale. Repentinamente, uma chuva caldalosa arremessou-se com fúria dos céus sobre os indivíduos.
Sem que Ranik pudesse entender o porquê, todos ali começaram a ficar manchados em sua pele, com tons que variavam do amarelo Sol ao vermelho da brasa. Com um sorriso de satisfação no rosto, pela primeira vez naquele dia o líder molita gritou. Foram duas sílabas esbravejadas, repetidas por seus companheiros. Foi o marco da reviravolta.
O General observou atentamente o movimento adversário. Todos eles, que ficaram com a pele alaranjada após o início do temporal, atacavam impiedosamnete os ueltas que tinham o amarelo estampado em si, mesmo se em formação ou defendidos.
Olhando para o próprio braço, o líder uelta viu que o vermelho intenso era a cor que o cobria e compreendeu a magia dos nativos. Incapaz, pela primeira vez em sua longa vida, Ranik ordenou a retirada. Seus soldados mais rasos estavam sendo massacrados e o exército rapidamente perdia volume. Por terem o Sangue fraco, os jovens guerreiros não eram poupados do esquartejamento promovido pelos molitas.
Apesar de tudo, o General não estava de todo despreparado. A tática para recuar e se retirar fora treinada e, pela primeira vez desde que assumiu o exército, foi posta em prática. Cada uelta deveria carregar um corpo que tivesse perdido menos Sangue possível e recuar até o ponto acordado.
Ranik não se deu esse trabalho. Caminhou de costas, com o olhar fixo em Vina, que retribuiu com alívio no semblante. Os ueltas voltariam furiosos e mais preparados, isso era fato, mas com muito mais respeito também. O General fervia de raiva e viria para a revanche. Entretanto, não em um futuro próximo. A paz provisória dos molitas estava conquistada.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Extrema-Unção (parte 2)
Primeira parte: Extrema-Unção (parte 1)
Uma semana separava a saída de Daniel do hospital de sua saída de casa naquele dia. Neste período, o rapaz não tinha tomado conhecimento de nenhum outro anjo pelos lugares em que esteve, levando-o a pensar que tudo aquilo podia ser efeito colateral de algum remédio que lhe fora administrado. Contudo, a fé que habitava seu coração - que havia voltado a habitar, na verdade - era a única prova de que precisava.
Convidado por sua tia Maria, o jovem decidiu ir à missa na igreja em que fora batizado, primeiro passo religioso que daria para sua retomada no caminho do Senhor. Ao fim da celebração, ele ainda permaneceu algum tempo recebendo palavras de incentivo de alguns fiéis, que acompanharam a agonia da família pelas fofocas de bairro, e respondendo perguntas de curiosos. Após a sabatina, ajoelhou-se e orou mais um pouco em agradecimento e ação de graças. Quando ergueu a cabeça, notou que na igreja só restavam ele, sua tia e o padre, estes dois conversando animadamente. Contudo, ouviu um hino ser assobiado ao fundo e, quando virou de costas, viu que um faxineiro varria o piso do templo.
Com uma explosão silenciosa, um clarão emanou das costas do rapaz que passava a vassoura. Rafael não era o único; aquilo não foi alucinação! O servente, então, ergueu a cabeça, sorriu para Daniel, cessou o assobio e caminhou em direção ao rapaz. Sentou-se ao seu lado - Daniel maravilhado com a visão - e falou baixo, mas totalmente audível: "O inimigo já sabe da sua existência. Seja firme na fé e não sucumba à tentação." O anjo sorriu mais uma vez, olhando no fundo dos olhos do ungido, e partiu, voltando a assobiar o hino. Deixou a igreja antes que Daniel pudesse apresentar qualquer reação.
O chamado de sua tia para partirem tirou-o da inanição. As palavras do ser que nem ao menos se apresentou martelavam sua cabeça enquanto caminhavam de volta para casa. Tia Maria, todavia, nem notou as feições de preocupação do sobrinho e pediu que entrassem em uma loja de departamento no quarteirão seguinte. O sobrinho concordou com a cabeça, muito provavelmente sem saber com o que assentia. Enquanto a senhora olhava cobertores e edredons, o rapaz foi à seção de eletrônicos.
No momento em que saiam sem terem comprado nada, o alarme antifurto disparou. Na mesma hora, Daniel sentiu uma mão pesada tocar em seu ombro e uma voz intimidadora falar-lhe: "Rapaz, o dono desta loja gostaria de conhecê-lo. Você pode me acompanhar, por gentileza?". Sem muita alternativa, quase que carregado pelo segurança, ele foi levado da frente para os fundos da loja, onde os escritórios ficavam. Sua tia protestava impotente enquanto via o sobrinho ser levado. A memória do sequestro ainda estava muito fresca na mente dela...
A sala em que Daniel aguardava era decorada de maneira sóbria: poucos quadros na parede azul escuro, luz indireta e uma mesa grande de madeira, que lembrava a de salas de grandes executivos. De uma porta lateral, diferente daquela pela qual ele fora empurrado para dentro, sai um homem que aparentava seus 40 e poucos anos. O terno cinza escuro muito bem alinhado, o cabelo penteado para trás com gel e a retidão do caminhar não combinavam com o fato de ser dono de uma loja de bairro.
O homem misterioso sentou em sua cadeira, inclinou-se para frente, apoiou os cotovelos sobre a mesa, o queixo sobre os punhos cerrados e sorriu. Um calafrio percorreu a espinha de Daniel; ele se esforçava para não tremer nem sucumbir às lembranças do sequestro. Aos poucos, um cheiro de carne queimada foi tomando conta do lugar, sem fonte aparente. O dono da loja não se mexia, exceto pelos olhos que fitavam alternadamente a face e o tronco de rapaz.
Subitamente, uma fumaça negra começou a brotar das costas do homem de terno, formando uma sombra do que pareciam asas, mas com um aspecto incerto e macabro, quase como as asas de um dragão medieval. "Não se assuste, Ungido! Vamos conversar...".
Daniel paralisou. Seus olhos arregalados fixavam posição nos olhos da criatura a sua frente, que parecia ter chamas brilhando na pupila que se dilatava aos poucos. Instintivamente, começou a orar, pouco prestando atenção nas palavras que resmungava, mas buscando dentro de si toda fé que havia resgatado e retomado.
"A guerra é contada pelos vencedores, meu caro!", disse aquele ser perturbador. "Mas você já ouviu a nossa versão? Já parou para pensar por que os anjos pedem desesperadamente que nenhum humano nos dê ouvido? Será que não é porque nós temos uma parte da verdade que não lhes convém?"
"Pode me chamar de Samael." O demônio estendeu a mão como quem pede para ser cumprimentado. Daniel hesitou e não se mexeu (provavelmente não conseguiria nem se quisesse), o que, aparentemente, não foi tomado como insulto. "Ok, respeito seu temor. Não vou segurá-lo aqui por mais tempo porque agora você está em evidência e eu não quero esses holofotes para mim. Serei breve em meu relato:"
"Como um cristão praticante, você conhece a versão angelical da queda do grande Lúcifer. Saiba, contudo, que o que ele realmente queria não era o lugar do Jeová, mas que o conhecimento que ele detém fosse disseminado. Que a ditadura do orbe superior acabasse! A guerra que se seguiu à tentativa do Primeiro Caído de encontrar a fonte da sabedoria suprema foi provocada unicamente pela incitação da massa de anjos bitolados e sem personalidade pelo dito Todo-Poderoso!" Daniel, sem perceber, parou de rezar. Começou a prestar mais atenção ao que Samael dizia.
"Agora é evidente para mim que perderíamos, mas nossa ideologia nos levou a entrar na batalha direta e frontal com dois terços dos habitantes celestes! Fomos exilados após a derrota e refundamos o céu em um orbe inferior. Tudo o que queremos é o conhecimento supremo que aquele ditador prepotente guarda só para si... Você, na posição de Ungido, ou Esclarecido, como nós preferimos, é uma peça chave para balancear essa busca." Um instante de silêncio se fez. Os dois se olhavam compenetradamente. Nenhum músculo era movido por eles.
"Pode ir agora, rapaz! Pense no que te falei e volte sempre que quiser, dizendo que precisa falar com o senhor Geheimgang." As asas negras saíram de cena, o cheiro da sala voltou a ser de madeira e tinta. Samael, ou Sr. Geheimgang, levantou-se e saiu pela porta que entrou. A tranca da porta pela qual Daniel foi jogado ali dentro se fez ouvir abrindo.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Extrema-Unção (parte 1)
O ambiente era escuro, com um ar úmido e pesado que fazia do ato de respirar um desafio. Um rapaz ajoelhado, mãos atadas às costas, tinha uma arma apontada para sua cabeça. A curta distância provavelmente faria a bala abrir apenas um pequeno buraco ao entrar em sua nuca, mas a saída causaria um estrago gigante em seu rosto. As perspectivas não eram boas para Daniel, rendido daquela forma.
É nesse instante que, conforme a cultura popular prega e ele foi capaz de provar, a vida passa diante dos olhos. Daniel se lembrou de sua infância na casa dos avós, os passeios com seus irmãos, o pouco tempo que passara com os pais (que mais trabalhavam do que eram presentes), as três namoradas que teve na vida, o carro que recebeu ao passar no vestibular, a batalha para se formar na faculdade enquanto o câncer de seu avô avançava; finalmente lembrou-se de uma frase que sua avó repetia à exaustão e aparentemente sem motivo: Meu Senhor e meu Deus, eu creio, mas aumentai a minha fé!
Nesta fração de segundo, a recordação pairou sobre sua infância religiosa, a desilusão com as instituições e seu afastamento da espiritualidade, para tristeza de Dona Cristina, mãe de seu pai. E aí, somente aí, ele entendeu o porquê da ladainha silenciosa e diária daquela senhora dos cabelos tão brancos que praticamente o criou. E decidiu repetir, também cochichando e também com fé, aquela força mística que aparece em momentos de desespero: "Meu Senhor e meu Deus, agora eu creio. Aumenta a minha fé!”.
"Para de choramingar, moleque! Eu avisei ao teu pai para não envolver a polícia nisso aqui! Era só pagar quietinho que a gente te entregava, porra!" Após o palavrão, um tiro se fez ouvir. O barulho do corpo ao atingir chão se confundia no meio da confusão de sirenes, gritos, passos de corrida e vozes em radiocomunicadores.
Abrindo os olhos, que haviam sido fechados com força quando o estampido preencheu o ambiente, Daniel viu o corpo de um dos seus sequestradores caído ao seu lado. O buraco à bala acima do olho atestava sua morte certa. Em instantes, diversos policiais romperam os cadeados e trincos das entradas e invadiram o ambiente. Antes de desmaiar, porém, o jovem viu uma sombra humanoide no fundo do galpão fugir do local. Ele poderia jurar que viu asas naquela imagem.
Daniel acordou no hospital cercado por familiares, inclusive seus pais. Ficaria ali em observação por 48 horas para alguns exames, incluindo uma conversa com a psicóloga, afinal passara quase uma semana em posse de seus raptores. Quando as pessoas foram embora e seu pai, que lhe faria companhia durante esse período, foi comprar algo para comer, um enfermeiro entrou no quarto. Homem negro e de porte atlético, mas com um ar bastante sereno e sorriso pacato. Com sua voz intensa, mas falando em tom calmo e baixo, ele desejou boa noite a Daniel.
"Meu nome é Rafael e sou seu enfermeiro deste turno. Se precisar, aperte este botão e virei atendê-lo." Depois de observar os aparelhos e fazer anotações em uma prancheta, Rafael virou-se e disse ao rapaz: "Feche os olhos, por favor. Diga-me: você realmente crê?".
O coração de Daniel disparou, um turbilhão de emoções invadiu seu corpo por um instante tão breve quanto um amém. "Como esse enfermeiro faria tal pergunta, dado tudo o que se passou hoje?!" Contudo, o que se seguiu foi paz. Uma paz imensa preencheu cada membro do seu corpo, cada pelo, cada poro. Lágrimas escorreram de seus olhos e ele conseguiu falar "Sim, eu creio!".
Quando abriu os olhos, todo o ambiente estava muito mais claro. Ao fitar Rafael, Daniel notou que o brilho emanava de sua cabeça, assim como de suas costas dois feixes de luz se projetavam como asas.
"Rapaz, por Ele foi dada a benção a você de nos identificar. Você poderá saber quem somos entre os homens e compreenderá nossa língua antiga. Você agora é um ungido. Viva uma vida de retidão, ande sob as leis de nosso Criador, ajude o próximo e teu lugar ao Seu lado estará seguro. Contudo, como os inimigos já foram o que vocês chamam de anjo, você também saberá identificá-los e eles saberão que você é abençoado. A tentação será grande, mas acredite que Deus é fiel!"
Após o minidiscurso, não que Daniel tenha sido capaz de processar muita coisa, o enfermeiro saiu do quarto e seu pai entrou. Algumas palavras foram trocadas, mas este não perguntou nada sobre os olhos molhados do jovem, imaginando que era natural sua recorrência dado os episódios de violência recente. Daniel preferiu dormir em seguida, para tentar de fato acordar. Desde que o Sol se pusera, nada havia feito sentido. E o astro-rei já estava prestes a retornar aos céus...
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Guerra e Sangue (parte 1)
Ranik levantou a cabeça e observou o que viria a se tornar um campo de batalha. Do alto de um monte baixo, ele pôde ver a planície que se estendia a sua frente, com poucas gramíneas e essencialmente pedregoso. Pedras pequenas, fato, mas relevantes o suficiente para que ele levasse em conta em sua estratégia.
Atrás de si, um exército de pouco mais de 12 mil homens bem treinados, já conhecedores da arte do Sangue, aguardava suas ordens. Todos enfileirados e em grupos, conforme aprenderam com o General, outro nome pelo qual Ranik era conhecido.
Do outro lado deste cenário, os molitas aguardavam ansiosos a movimentação do adversário. Para eles, tratava-se do segundo contato com os ueltas. Os molitas sempre foram um povo guerreiro, mas de tradições seculares que limitavam a expansão territorial e populacional, motivo pelo qual nunca começaram nenhum conflito na história de Volq, mas também nunca foram dominados ou exterminados.
Os sentidos de Ranik procuravam o líder dos molitas, aqueles que deveria ter o Sangue mais forte e que seria certamente sua presa. Entretanto, com uma organização bastante particular, o exército molita não distinguia seus elementos, mesmo aqueles com papéis de liderança. Pequenas marcas feitas com pinos quentes sobre a pele, invisíveis a tão grande distância e impossíveis de diferenciar de cicatrizes de batalha se não por olhos treinados, cumpriam esse papel.
Ranik, como sempre fazia quando sentia que era hora do combate, ergueu seu escudo e começou a bater o pé no chão repetidamente. Seus combatentes repetiram o movimento, fazendo o ambiente ressoar como se os tambores do inferno anunciassem que seus arautos estavam prontos para encher os salões do submundo.
Para a surpresa dos ueltas, mas não do General, os molitas iniciaram um canto de guerra sincronizado com uma espécie de dança tribal. Uma dança de poucos movimentos, mas muito firmes e intensos. O cenário seria assustador para quem observasse de fora!
No fim, ambos os povos apenas buscavam a mesma coisa, mas de forma diferente: o fortalecimento do Sangue. Todo habitante de Volq conhecia a velha benção-maldição, rogada pela deusa Gobrela antes do tempo ser tempo e do espaço ter forma, quando foi abusada, agredida e transformada em tudo o que nos cerca pelo seu irmão gêmeo Darudo.
Instantes antes da última investida fraternal, conta a lenda, Gobrela fez com que toda a cria de Darudo tivesse uma parte dela em seu sangue ao nascer. Sua essência faria com que nenhum deles vivesse mais do que 100 estações, metade do potencial das demais criaturas, a não ser que consumissem o sangue uns dos outros. Virtualmente, os seres darudanos poderiam viver eternamente, mas em um estado de guerra permanente.
Essa era a ambição constante de Ranik, que já vivia mais do que 450 estações e sabia que, além da sobrevida, o Sangue dava mais força, destreza e inteligência. Também sabia que, quanto mais forte fosse o Sangue consumido, mais potente e duradouro seriam os efeitos.
Contudo, esse também era o trunfo dos molitas, que retiravam o Sangue dos mortos em batalha em uma cerimônia coletiva e permitiam que todos bebessem da mistura. Eram um povo unido, fiel e forte.
Após alguns minutos em que as tropas disputavam quem fazia mais barulho, cada uma com sua manifestação particular, o General abaixou o escudo e inspirou o mais fundo que seus pulmões permitiam. Seu exército repetiu o movimento com o escudo e cessou a batida com os pés.
Um grito grave, alto e aterrorizante rasgou o ar, saindo do peito do líder dos ueltas. Estava dado o sinal para o início do combate.
domingo, 28 de agosto de 2011
A criação (Parte 1)
O Tempo sempre existiu e sempre vai existir. Quando ainda não se definia o que era haver, o tempo já havia. Ele passou uma eternidade tentando saber o que era o tempo, e outra admirando sua beleza quando descobriu.
Mas, em algum momento, o Tempo cansou de apenas ser; e decidiu que queria estar. Acontece que ele não sabia como passar de um para outro, e gastou uma eternidade pensando como fazer a mudança.
De tanto pensar, encontrou uma forma. Então, em um movimento de dentro para fora, o Tempo se tornou Espaço, mas ainda era Tempo. O Espaço era vazio e escuro. E, pela primeira vez depois de tanto tempo, o Espaço, que já tinha sido Tempo, sentiu-se só. Mas não tinha tempo para pensar no que fazer, e tinha ficado grande demais para se mexer e mudar para outra forma. Achou que o melhor a fazer era se adensar um pouco e criar companheiros.
Em um soluço, criou três entidades, que viriam a ser chamadas de Trindade Absoluta. Curioso com suas criações, o Espaço indagou a elas o que eram.
- Eu sou a essência da criação, com poderes de preencher o vazio com matéria. Posso dar a forma que quiser e gerar o que bem entender. Quero me chamar Nalus.
Menos afoito e mais certo do que dizer, o próximo disse:
- O nada é meu objetivo, sou a negação da existência. Separo, acabo, destruo, reduzo. Não vou ter denominação diferente de Trifan.
Tímido, pensativo, observador e levemente contemplativo, o terceiro decidiu se pronunciar:
- Vão me chamar de Cuzio, mas não queria ter esse nome para sempre. Entretanto, não tenho outra escolha. Sendo assim, decidi que vou ser o espírito da mudança, o ente destinado a não permanecer, mas alterar. Não crio, como meu majestoso irmão Nalus, nem destruo, como o incisivo Trifan, também sangue do meu sangue. Serei a força que influencia suas ações, tomando posse de produto deles e modificando a meu prazer. Serei dono das coisas mesmo sem poder fazê-las minhas.
Ouvindo o que fora proferido pelos três, e maravilhado com o que fizera, o Espaço chorou, e suas lágrimas são a fonte da vida.
